narradores1“Quem conta um conto, aumenta um ponto.” O famoso ditado certamente pode resumir o sentimento transmitido pelo filme brasileiro “Narradores de Javé” (Eliana Caffé – 2003). O filme é sobre a pequena cidade de Javé que eventualmente será submersa pelas águas de uma represa. Seus moradores não serão indenizados e não foram sequer notificados por não possuirem registros nem documentos das terras. Inconformados, descobrem que o local poderia ser preservado se tivesse um patrimônio histórico de valor comprovado em “documento científico”. Decidem então escrever a história e buscam Antônio Biá, o “autor” da obra de cunho histórico, para acrescentar algumas linhas e ter o seu nome citado.

Logo no início percebe-se a necessidade do ser humano de se externar, de se oralizar, e como essa necessidade está ligada com a capacidade criativa de cada um. Vejam, cada morador da pequena Javé possui a sua versão de determinado acontecimento. E mais, cada versão reflete o modo de “se olhar” dentro da história, como forma de identificação pessoal (reparem na história de Mariardina e em seu protesto em defesa das mulheres).

Jave_001

Além destas questões de externação oratória, Caffé demonstra estrema sensibilidade ao tocar em uma realidade muito comum em nossa atualidade: o desaparecimento de pequenas cidades em favor do desenvolvimento. A questão ambiental é, de maneira clara, o pano de fundo que movimento todo o filme. Em nome do sonhado e proclamado desenvolvimento, uma cidade com histórias fantásticas seria apagada do mapa do país por não possuir registros “científicos”.

É com bom humor e inteligência que o filme demonstra ser muito mais do que aparenta. A guerra oral X escrito ultrapassa a tela do cinema e metaforicamente nos conta a história de uma cidade sem história. Recomendadíssimo!

Frases: Lembrar os quotes foi um dos momentos mais divertidos dessa crítica 🙂

  • “Você está confundindo habeas corpus com corpus christ”
  • “Viver… tanto e tanto…pra morrer cagando em todo canto!”
  • “Vocês tão pensando que eu sou quem? O divino Espírito Santo amém? O POKEMON DE JESUS?”
  • “Como os nossos mortos vão viver debaixo d’água?”
  • Sem falar dos adjetivos criativos: “Piaba de silicone”, “manicure de lacraia”, “Iemanjá de açude”, “Exu de galinheiro”, “omelete de cupim”, “tapioca de Exu”, “desinteria de tinta”, “um dilúvio bovino”, “clonado de miolo de pão”.
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